Estágios da doença renal crônica: do leve ao avançado, o que muda em cada fase
Os estágios da doença renal crônica mostram quanto dos rins ainda funciona e qual é o risco de piora e de complicações cardíacas. Entender essa escala, do leve ao avançado, ajuda você a agir no momento certo – nem tarde demais, nem antes de precisar mudar a rotina.
“Saber em que estágio você está não serve para assustar, mas para apontar o caminho do que ainda dá tempo de proteger.”
O que é a doença renal crônica por estágios?
A doença renal crônica é a perda lenta e permanente da função dos rins, medida ao longo do tempo. Os estágios organizam essa perda em faixas, do leve ao avançado, de acordo com a taxa de filtração glomerular (TFG/eGFR) e outros sinais de lesão, como proteína na urina.
Na prática, isso significa que a pessoa pode ter a mesma “doença”, mas estar em momentos muito diferentes dela. Alguém no estágio inicial pode viver anos com boa qualidade de vida se cuidar bem dos fatores de risco. Já nos estágios avançados, a equipe médica se prepara para terapias como diálise ou transplante.
Quais os tipos de estágios da doença renal crônica?
Os estágios vão de G1 a G5, conforme o valor da TFG: G1 e G2 indicam filtração ainda preservada, mas com sinais de lesão; G3a e G3b mostram queda moderada; G4 indica queda grave; G5 corresponde à falência renal. A classificação se torna mais precisa quando se associa à quantidade de proteína na urina.
Essa forma padronizada de classificar a doença vem de diretrizes internacionais, como as da KDIGO (Kidney Disease: Improving Global Outcomes). Ela facilita a comunicação entre médicos, ajuda a estimar o risco de progressão e orienta decisões de tratamento, acompanhamento e preparo para diálise ou transplante quando necessário.
Tabela – Estágios da DRC pela TFG (eGFR)
| Estágio (G) | TFG (mL/min/1,73m²) | Significado básico |
| G1 | ≥ 90 | Função preservada, mas com outro sinal de lesão renal |
| G2 | 60–89 | Leve queda da função, com sinais de lesão |
| G3a | 45–59 | Queda leve a moderada |
| G3b | 30–44 | Queda moderada a importante |
| G4 | 15–29 | Queda grave |
| G5 | < 15 | Falência renal / estágio final |
Como são definidos os estágios pela TFG e pela albuminúria?
A TFG mostra quanto os rins filtram; a albuminúria mostra quanto de proteína “escapa” na urina. A combinação TFG (G1–G5) + albuminúria (A1–A3) define o risco de progressão. Quanto menor a TFG e maior a albuminúria, maior a chance de a doença avançar e de surgir complicações cardiovasculares.
Por isso, diretrizes modernas falam em classificação CGA (Causa, GFR, Albuminúria). Não se trata só de “quanto por cento do rim funciona”, mas também de qual é a causa de base (como diabetes, hipertensão, doenças autoimunes) e de quanta proteína se perde na urina, que é um marcador importante de agressão ao rim.
Tabela – Categorias de albuminúria
| Categoria (A) | uACR (mg/g) aproximado | Interpretação |
| A1 | < 30 | Normal ou levemente aumentada |
| A2 | 30–300 | Aumentada moderadamente (“micro”) |
| A3 | > 300 | Aumentada acentuadamente (“macro”) |
O que muda em cada fase da doença renal crônica?
Nos estágios iniciais, a pessoa geralmente não sente nada, mas os exames já mostram sinais de alerta. A partir dos estágios moderados, surgem cansaço, inchaços, anemia e alterações ósseas. Nos estágios graves, o risco de diálise, transplante e complicações cardíacas aumenta bastante. A intensidade do cuidado também muda com cada fase.
De forma simplificada, os estágios G1–G2 são o momento de detectar e proteger; G3a–G3b, o momento de frear e monitorar de perto; G4, o momento de preparar escolhas futuras; G5, o momento de decidir e iniciar terapias substitutivas (diálise ou transplante), quando indicadas.
Tabela – O que muda em cada estágio
| Estágio | Situação geral dos rins | Objetivo principal |
| G1–G2 | Lesão inicial, função ainda preservada | Tratar causa, controlar riscos |
| G3a | Queda leve a moderada | Desacelerar progressão |
| G3b | Queda moderada a importante | Evitar complicações e internações |
| G4 | Queda grave | Planejar diálise/transplante |
| G5 | Falência renal | Iniciar ou manter terapia substitutiva |
Quais sintomas costumam aparecer em cada estágio?
Nos estágios G1–G2, a doença costuma ser silenciosa. Em G3, podem surgir cansaço, inchaço leve e pressão alta difícil de controlar. Em G4, sintomas ficam mais evidentes: falta de ar, náuseas, coceira, perda de apetite. Em G5, aparecem sintomas intensos de intoxicação, como sonolência, confusão e inchaços importantes.
Nem todas as pessoas sentem o mesmo. Idosos, pessoas com múltiplas doenças e pacientes já fragilizados podem manifestar sintomas antes de chegar aos estágios mais avançados. Por isso, usar apenas os sintomas como “termômetro” é arriscado. Exames regulares de sangue e urina continuam sendo a base do acompanhamento.
Tabela – Sintomas por estágio (tendência geral)
| Estágio | Sintomas mais comuns (tendência) |
| G1–G2 | Geralmente sem sintomas; alterações só em exames |
| G3 | Cansaço, inchaços leves, câimbras, pressão difícil de controlar |
| G4 | Náuseas, falta de apetite, coceira, falta de ar, anemia |
| G5 | Sonolência, confusão, muito inchaço, falta de ar intensa |
Como é o tratamento em cada estágio da doença renal crônica?
Em todos os estágios, o tratamento inclui controlar pressão, glicose e fatores de risco, ajustar alimentação e evitar medicamentos que agridem os rins. Nos estágios iniciais, o foco é proteger. Nos estágios moderados e graves, acrescentam-se medicamentos específicos e preparo para diálise ou transplante, quando necessário.
Diretrizes atuais recomendam o uso de classes que comprovadamente protegem os rins em grupos selecionados, além de metas rigorosas de pressão e de glicemia. Acompanhamento com nefrologista torna-se cada vez mais importante à medida que o estágio avança. Em G4 e G5, decisões passam a envolver a família, a rotina de trabalho e o projeto de vida do paciente.
Tabela – Linha geral de tratamento por estágio
| Estágio | Foco de tratamento |
| G1–G2 | Diagnosticar causa, controlar pressão e glicose, estilo de vida |
| G3a | Otimizar remédios renoprotetores, ajustar dieta, monitorar de perto |
| G3b | Tratar anemia, ossos, acidez, revisar medicações |
| G4 | Planejar acesso para diálise, discutir transplante |
| G5 | Iniciar/manter diálise ou transplante, cuidados paliativos renais quando indicado |
Qual é o risco cardiovascular em cada fase?
O risco de infarto, AVC, arritmias e morte súbita é maior em quem tem doença renal crônica, mesmo em estágios iniciais. À medida que o estágio avança, esse risco cresce ainda mais, e muitas pessoas com DRC acabam morrendo de causas cardiovasculares antes de chegar à diálise.
Isso acontece porque rins e coração fazem parte do mesmo sistema. Alterações de pressão, inflamação crônica, anemia, acúmulo de toxinas e desequilíbrios minerais impactam diretamente vasos e músculos do coração. Por isso, acompanhar DRC não é só “cuidar dos rins”: é também prevenir eventos cardíacos graves.
Com que frequência devo monitorar os rins em cada estágio?
Em geral, quem está em G1–G2 faz exames pelo menos uma vez ao ano. Em G3, a recomendação costuma variar de 6 a 12 meses. Em G4, repete-se exames a cada 3 a 6 meses. Em G5, o controle fica ainda mais frequente, entre 1 e 3 meses, dependendo da condição clínica.
Essa frequência pode mudar conforme a presença de diabetes, hipertensão difícil de tratar, idade avançada, outras doenças, uso de medicamentos específicos ou mudanças recentes no quadro. Em momentos de instabilidade – infecções, internações, cirurgias – o médico pode solicitar exames extras para equilibrar o tratamento.
Quando se fala em “doença renal em estágio terminal”, o que isso significa?
Fala-se em doença renal em estágio terminal quando os rins já não conseguem manter o equilíbrio do organismo, geralmente em G5, com TFG abaixo de 15 mL/min/1,73m². Nessa fase, o risco de complicações graves aumenta bastante, e muitas pessoas precisam de diálise ou transplante para se manterem estáveis.
Isso não significa que a vida “acaba”, mas que ela muda de forma importante. Com planejamento, suporte de equipe multiprofissional e participação ativa do paciente, é possível adaptar a rotina, reduzir sintomas e manter uma boa qualidade de vida. O diálogo franco com o nefrologista ajuda a alinhar expectativas e escolhas.
Em que momento considerar diálise ou transplante?
A diálise ou o transplante entram em cena quando, além da TFG muito baixa, a pessoa apresenta sintomas de intoxicação, sobrecarga de líquidos, alterações graves de potássio ou outros desequilíbrios que colocam a vida em risco. A decisão considera exames, sintomas, doenças associadas e projeto de vida do paciente.
Em geral, o ideal é começar a discutir essas possibilidades ainda em G4, para que ninguém precise tomar decisões apressadas no meio de uma crise. Em alguns casos, pensa-se em transplante pré-emptivo (antes da diálise), especialmente quando a doença tem caráter progressivo bem definido e o paciente tem perfil adequado.
O que posso fazer hoje para não avançar de estágio?
Controlar pressão e glicose, não fumar, manter peso saudável, ajustar alimentação, seguir as orientações de medicamentos, evitar automedicação (especialmente com anti-inflamatórios) e fazer exames no intervalo recomendado são atitudes que ajudam a retardar a evolução da doença renal crônica e proteger o coração.
FAQ – Estágios da doença renal crônica
1. Estar no estágio 1 de DRC é motivo para pânico?
Não. Estágio 1 indica lesão inicial. É hora de cuidar dos fatores de risco e acompanhar de perto, não de entrar em pânico.
2. O estágio da doença renal pode regredir?
Em algumas situações, parte da função melhora; porém, na maioria dos casos, o foco é desacelerar a perda e evitar que o estágio avance.
3. Todo paciente em estágio 3 vai evoluir para diálise?
Não. Muitos pacientes em estágio 3 permanecem estáveis por anos com tratamento adequado e controle rigoroso dos fatores de risco.
4. A idade influencia o estágio da doença renal crônica?
Sim. A DRC é mais comum em idosos, mas idade não explica tudo. Há idosos com bom rim e jovens com doença avançada.
5. Mudar a alimentação ajuda em qualquer estágio?
Sim. Ajustes de sal, proteínas, fósforo e potássio, conforme orientação médica e nutricional, ajudam em todas as fases da DRC.
6. O estágio da DRC muda apenas com a TFG?
Não. A classificação considera TFG e albuminúria, além de outros sinais de lesão e da causa de base da doença.
7. É possível trabalhar normalmente em estágios iniciais?
Na maioria das vezes, sim. Com acompanhamento e controle adequado, muitas pessoas seguem trabalhando e vivendo ativamente.
8. Quem está em estágio 5 sempre precisa iniciar diálise imediatamente?
Nem sempre. A decisão depende de sintomas, exames e avaliação do nefrologista, que define o momento mais seguro para cada pessoa.
“Em muitos casos, o que define se a doença renal vai avançar rápido ou devagar não é o número que aparece no exame, mas o que você escolhe fazer com essa informação no seu dia a dia.”
Se você já tem hipertensão, diabetes, doença cardíaca, histórico familiar ou exames renais alterados, conversar com um nefrologista sobre em que estágio você está pode ser um passo decisivo. Entender a fase da doença permite planejar o presente com cuidado e o futuro com menos medo e mais autonomia.

Sobre a autora
Dra. Mariana Fontes Turano Campos (CRM RJ 52.87629-1) é médica nefrologista, graduada em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residências em Clínica Médica e Nefrologia. Possui Título de Especialista em Nefrologia pela Sociedade Brasileira de Nefrologia e MBA em Gestão em Saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Atua em hospitais e clínicas de referência no Rio de Janeiro e é membro da Sociedade Brasileira de Nefrologia, onde também faz parte do Comitê de Onconefrologia da SBN.




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