Hipertensão é herdada dos pais? O mito dos 90% explicado pela ciência

Hipertensão é herdada dos pais? O mito dos 90% explicado pela ciência

Durante muitos anos, a afirmação de que “90% dos casos de hipertensão são herdados dos pais” foi amplamente divulgada em livros, sites e redes sociais. Apesar de sua popularidade, essa informação não representa o consenso científico atual.

As evidências mostram que existe, sim, uma importante predisposição genética para o desenvolvimento da hipertensão arterial. No entanto, a doença resulta da interação entre centenas de variantes genéticas e fatores ambientais, como alimentação rica em sal, obesidade, sedentarismo, consumo excessivo de álcool, tabagismo, qualidade do sono e envelhecimento.

Em outras palavras, ter pais hipertensos aumenta o risco, mas não determina que uma pessoa desenvolverá hipertensão. Da mesma forma, indivíduos sem histórico familiar também podem apresentar pressão alta ao longo da vida.

Entender essa diferença é fundamental para combater mitos, interpretar corretamente os estudos científicos e, principalmente, adotar medidas capazes de reduzir significativamente o risco cardiovascular.

O mito dos 90% de hereditariedade

A origem da afirmação de que a hipertensão seria herdada em 90% dos casos provavelmente decorre da confusão entre dois conceitos completamente diferentes: frequência da hipertensão essencial e herdabilidade.

A hipertensão essencial representa aproximadamente 90% a 95% dos casos de pressão alta. Isso significa apenas que, nesses pacientes, não existe uma doença específica identificável causando a hipertensão.

Já a herdabilidade mede quanto da variação da pressão arterial observada em uma população pode ser atribuída às diferenças genéticas entre seus indivíduos.

Esses conceitos não são equivalentes.

As principais revisões científicas estimam que a herdabilidade da pressão arterial varie entre aproximadamente 30% e 60%, dependendo da população estudada, do método utilizado e das características ambientais.

Fonte:
https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/HYPERTENSIONAHA.121.17886

O que significa herdabilidade?

Herdabilidade não representa a probabilidade de uma pessoa herdar uma doença.

Ela indica quanto das diferenças observadas em determinada característica, dentro de uma população, pode ser explicado pela genética.

Imagine duas pessoas vivendo em ambientes completamente diferentes.

Mesmo que tenham predisposição genética semelhante, aquela que mantém alimentação saudável, pratica atividade física regularmente, controla o peso corporal e evita excesso de sal pode nunca desenvolver hipertensão.

Já outra pessoa, exposta continuamente aos fatores ambientais desfavoráveis, poderá apresentar pressão alta muitos anos antes.

Por isso, genética não é destino.

Hipertensão hereditária ou predisposição genética?

Esses termos costumam ser utilizados como sinônimos, mas possuem significados distintos.

A predisposição genética é extremamente comum.

Ela resulta da combinação de centenas ou milhares de pequenas variantes distribuídas pelo DNA, cada uma contribuindo com uma parcela muito pequena do risco.

Já as formas verdadeiramente hereditárias, causadas por mutações em um único gene, são extremamente raras.

São conhecidas como hipertensões monogênicas e incluem doenças como:

  • Síndrome de Liddle.
  • Hiperaldosteronismo familiar.
  • Excesso aparente de mineralocorticoides.

Esses casos representam uma fração muito pequena dos pacientes hipertensos.

Fonte:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK536954/

O que mostram os estudos com gêmeos?

Os estudos envolvendo gêmeos constituem uma das principais ferramentas para compreender a influência genética sobre doenças complexas.

Quando pesquisadores comparam gêmeos idênticos, que compartilham praticamente todo o material genético, com gêmeos fraternos, observam que os primeiros apresentam maior concordância para hipertensão.

As meta análises indicam herdabilidade próxima de 50%, reforçando que genética exerce papel importante, mas não exclusivo.

Os demais fatores dependem do ambiente e dos hábitos de vida.

Fonte:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17635952/

O que os estudos GWAS descobriram?

Nas últimas duas décadas, grandes estudos de associação genômica, conhecidos como GWAS, revolucionaram o entendimento da hipertensão.

Em vez de identificar um único gene responsável pela doença, esses estudos demonstraram que centenas de regiões do DNA participam do controle da pressão arterial.

Hoje já foram identificadas milhares de variantes relacionadas ao risco de hipertensão.

Cada uma exerce efeito pequeno.

Somadas, ajudam a compor o chamado Escore de Risco Poligênico (Polygenic Risk Score, PRS), ferramenta promissora para estimar predisposição genética individual.

Fonte:
https://www.nature.com/articles/s41588-018-0205-x

O papel da história familiar

Ter pai, mãe ou irmãos hipertensos continua sendo um dos fatores de risco mais importantes.

Entretanto, a história familiar não representa apenas genes compartilhados.

Famílias também compartilham hábitos alimentares, padrão de atividade física, ambiente social, nível de estresse e estilo de vida.

Por isso, histórico familiar aumenta o risco, mas não significa que a hipertensão seja inevitável.

Quando a hipertensão realmente é causada por alterações genéticas?

Na maioria das pessoas, a resposta é nunca.

As formas genéticas raras costumam apresentar algumas características específicas:

  • início muito precoce;
  • hipertensão grave;
  • difícil controle;
  • alterações importantes do potássio;
  • múltiplos familiares afetados ainda jovens.

Nesses casos, o médico pode indicar investigação genética específica.

Hipertensão secundária: quando existe uma causa identificável

Enquanto a hipertensão essencial responde pela maior parte dos casos, cerca de 5% a 10% apresentam uma causa definida.

Entre elas destacam-se:

  • doença renal crônica;
  • hiperaldosteronismo primário;
  • feocromocitoma;
  • síndrome de Cushing;
  • doenças da tireoide;
  • apneia obstrutiva do sono;
  • estenose das artérias renais.

O tratamento da doença de base pode melhorar significativamente o controle da pressão arterial.

Fonte:
https://www.escardio.org/Guidelines/Clinical-Practice-Guidelines/Arterial-Hypertension

Genética e estilo de vida atuam juntos

Os estudos atuais mostram que o ambiente pode potencializar ou reduzir o impacto da predisposição genética.

Entre os principais fatores modificáveis estão:

  • excesso de sal;
  • obesidade;
  • sedentarismo;
  • consumo excessivo de álcool;
  • tabagismo;
  • baixa ingestão de frutas e vegetais;
  • estresse crônico;
  • sono inadequado.

Mesmo pessoas com elevado risco genético apresentam redução importante da incidência de hipertensão quando mantêm hábitos saudáveis.

Fonte:
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1801744

Como reduzir o risco mesmo tendo pais hipertensos?

A melhor estratégia consiste em agir antes do aparecimento da doença.

As principais recomendações incluem:

  • manter peso adequado;
  • reduzir o consumo de sal;
  • seguir padrão alimentar semelhante à dieta DASH;
  • praticar atividade física regularmente;
  • evitar cigarro;
  • moderar bebidas alcoólicas;
  • controlar diabetes e colesterol;
  • medir a pressão arterial periodicamente.

Quanto mais cedo essas medidas forem iniciadas, maior tende a ser o benefício ao longo da vida.

O que dizem as diretrizes internacionais?

As principais diretrizes internacionais concordam que a hipertensão é uma doença multifatorial.

A genética exerce influência importante, porém não suficiente para determinar o desenvolvimento da doença.

A prevenção continua baseada na identificação precoce dos fatores de risco e na adoção de hábitos saudáveis.

Referências:

Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC):
https://www.escardio.org/Guidelines/Clinical-Practice-Guidelines/Arterial-Hypertension

American Heart Association (AHA):
https://www.heart.org/en/health-topics/high-blood-pressure

Sociedade Brasileira de Cardiologia:
https://abccardiol.org/article/diretrizes-brasileiras-de-hipertensao-arterial/

Herdabilidade encontrada em diferentes estudos

EstudoResultado aproximado
Meta análises com gêmeosCerca de 50%
Revisões sistemáticasEntre 30% e 60%
Estudos GWASCentenas a milhares de variantes genéticas associadas

Predisposição genética versus hipertensão hereditária

Predisposição genéticaHipertensão monogênica
Muito comumMuito rara
MultifatorialGene único
Influenciada pelo ambienteMutação específica
Pequeno efeito de muitas variantesGrande efeito de uma única alteração genética

Como a hipertensão realmente acontece

Genes

Predisposição genética

Interação com o ambiente

Excesso de sal

Obesidade

Sedentarismo

Envelhecimento

Hipertensão arterial

Faq - Perguntas frequentes

Perguntas frequentes (FAQ)

Hipertensão passa de pai para filho?

Existe aumento do risco familiar, mas a hipertensão não é transmitida de forma obrigatória.

Quem tem pais hipertensos certamente desenvolverá pressão alta?

Não. A predisposição genética aumenta o risco, mas hábitos saudáveis podem reduzir significativamente essa probabilidade.

A hipertensão é causada apenas pela genética?

Não. Trata-se de uma doença multifatorial, influenciada tanto pelos genes quanto pelo estilo de vida.

O que significa hipertensão essencial?

É a forma mais comum de hipertensão, sem uma causa única identificável, resultando da interação entre fatores genéticos e ambientais.

Existe exame para saber se vou ter hipertensão?

Ainda não existe um exame utilizado rotineiramente capaz de prever com precisão quem desenvolverá hipertensão. Os escores poligênicos são promissores, mas permanecem em fase de incorporação clínica.

Qual a melhor forma de prevenir a hipertensão?

Manter alimentação saudável, controlar o peso, praticar atividade física, reduzir o consumo de sal, evitar cigarro, moderar o álcool e acompanhar regularmente a pressão arterial.

Cuide hoje da sua saúde cardiovascular

Conhecer a influência da genética é importante, mas agir sobre os fatores que podem ser modificados faz muito mais diferença para a saúde. Mesmo pessoas com forte histórico familiar podem reduzir significativamente o risco de hipertensão ao adotar hábitos saudáveis e realizar acompanhamento médico periódico. Se houver casos de pressão alta na família, converse com um nefrologista ou cardiologista para definir a melhor estratégia de prevenção e monitoramento.

Fontes consultadas

American Heart Association. High Blood Pressure. https://www.heart.org/en/health-topics/high-blood-pressure

European Society of Cardiology. 2024 ESC Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension. https://www.escardio.org/Guidelines/Clinical-Practice-Guidelines/Arterial-Hypertension

Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial. https://abccardiol.org/article/diretrizes-brasileiras-de-hipertensao-arterial/

Hypertension. Genetics of Hypertension. https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/HYPERTENSIONAHA.121.17886

Nature Genetics. Genetic analyses of blood pressure traits. https://www.nature.com/articles/s41588-018-0205-x

New England Journal of Medicine. Genetic Risk, Adherence to a Healthy Lifestyle, and Coronary Disease. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1801744

NCBI Bookshelf. Monogenic Hypertension. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK536954/

PubMed. Heritability of blood pressure. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17635952/

Dra. Mariana Turano
Dra. Mariana Turano: Nefrologista Ipanema / Nefrologista Barra da Tijuca / Clínica Médica

Sobre a autora

Dra. Mariana Fontes Turano Campos (CRM RJ 52.87629-1) é médica nefrologista, graduada em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residências em Clínica Médica e Nefrologia. Possui Título de Especialista em Nefrologia pela Sociedade Brasileira de Nefrologia e MBA em Gestão em Saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Atua em hospitais e clínicas de referência no Rio de Janeiro e é membro da Sociedade Brasileira de Nefrologia, onde também faz parte do Comitê de Onconefrologia da SBN.

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